segunda-feira, 20 de junho de 2011

Sobre o livro de Thiago Lia Fook

À memória da poesia morta

Jairo Cézar


‘poesia natimorta e versos sobreviventes’ é o livro inaugural de Thiago Lia Fook Meira Braga. Devemos dizer que é um livro bastante maduro para um iniciante. Thiago não comete os excessos dos poetas de primeira viagem; ao contrário, contém a sangria verborrágica que acomete os estreantes.

O livro editado pela Bagagem de Campina Grande é ilustrado por Flaw Mendes e divide-se em poesia natimorta, introspecções, intersecções e circunstâncias.



A seção ‘poesia natimorta’ é composta por um poema apenas, de título homônimo. Nele, em tom de constatação metalingüística, a voz lírica se julga impotente diante da feitura do verso, chegando a confessar no fechamento do poema que não apenas ele, mas também o próprio verso, estão condenados ao não ser.


“somos eu e a poesia
natimorta...”



A segunda seção, nomeada ‘introspecções’ é composta por treze poemas, cuja temática gira em torno de reflexões sobre o tempo e a morte.


Desta parte do livro, selecionaremos o poema ‘manifesto’ (p. 19) para uma breve análise.


Neste texto, a voz lírica Braguiana demonstra todo seu desconforto com relação ao mundo material e corpóreo.


“eu choro e suporto
apenas um mundo:
o meu”



 Seguindo a linha aporética, o eu lírico, em uma reflexão hipotética, chega a considerar a morte da própria morte:


“encontraremos juntos o vazio do mar”



Observem que no verso final, fica explícita a incredulidade da voz lírica na solução desse desconforto; ao contrário, mesmo com o fim da existência material e até da própria morte, o nada é o destino certo.


O tema predominante na seção ‘intersecções’, composta por quatorze poemas, é o amor.

O poema escolhido para observações foi ‘canção do amor em segredo’ (p. 51)

canção do amor em segredo


ele amou em segredo
                                    aos poucos
                                    voltou
             a ser
             criança:



Neste poema, Thiago faz uma releitura das canções de amigo comuns na idade média portuguesa, onde o amor, que nunca que concretiza, vive apenas no mundo das ideias da voz lírica masculina.

A última parte do livro denomina-se ‘circunstâncias’, que conta com quinze poemas. Os textos desta seção giram em torno do cômico e alguns poemas são dedicados a escritores, como ‘itinerário para Mário Quintana’ (p. 77), ‘ode ao dicionário’, para Silveira Bueno (p. 89) e ‘para Fernando Sabino’ (p. 93).

Para superficial análise, escolhemos o poema ‘itinerário para Mário Quintana’. Nele, bem ao estilo do poeta gaucho, o poeta de Campina Grande carrega no prosaísmo aliado à filosofia do cotidiano, onde a voz lírica procura, no reflexo do espelho, sondar sem sucesso sua essência.

Eis um fragmento do  poema:

itinerário para Mario Quintana

enveredei pela rua
à espera de capturar
com as próprias mãos o vento



Para concluir, devemos dizer que o presente texto se propõe a abordar de forma superficial a obra do poeta Thiago Lia Fook Meira Braga. Seus textos carregados de lirismo e reflexões filosóficas merecem leituras bem mais apuradas, mas este não é o objetivo deste estudo, que convida o leitor a tirar suas próprias conclusões através da leitura de poesia natimorta e versos sobreviventes.

Resenha para o concurso Outros Olhares promovido pelo Cultural.


2 comentários: